
FRANQUIA, a bola da vez
Fonte: Revista Executiva - Portal UOL

Tecnologia avançada, garantia de retorno financeiro a médio prazo, investimentos em marketing, diferenciais entre os produtos, pontos-de-venda bem estruturados e espalhados do Oiapoque ao Chuí, sem falar de uma série de benefícios e vantagens aos interessados. Esses são alguns dos elementos que envolvem uma concorrência acirrada e emocionante, travada no ramo das franquias brasileiras.
E os números confirmam o cenário favorável aos que enveredam por esse mundo. No Brasil, o setor de franchising vem registrando um crescimento em torno de 10% ao ano. "Já ocupamos a sexta posição no mercado mundial. Nosso país fi ca atrás apenas dos Estados Unidos, Japão, China, Canadá e França", diz o diretor-executivo da Associação Brasileira de Franchising (ABF), Ricardo Camargo, antes de embarcar rumo a Portugal para participar, pela segunda vez, de um evento na área. Segundo ele, nossos produtos vêm conquistando espaço e tendo boa aceitação na Europa, famosa pelo alto grau de exigência com os artigos importados.
Vida longa
O boom de franquias se deve em parte, ou em grande parte, às taxas de êxito que essas empresas atingem. "Do total, apenas 7% dos novos franqueados não se sustentam nos primeiros quatro anos de funcionamento, enquanto que em outros tipos de empreendimentos, esse índice atinge a casa dos 60%", revela Adir Ribeiro, sócio-diretor da empresa de consultoria Cherto, que está no mercado há 20 anos.
E as razões para tanto otimismo em relação à expansão do setor, diz o consultor Adir Ribeiro, são frutos do amadurecimento das empresas que hoje oferecem oportunidades no segmento de franquias, além do próprio sistema de franchising que está cada vez mais em sintonia com o perfil do consumidor.
Atualmente, os setores que estão em ascensão, segundo especialistas da área, são o de educação, esporte, saúde, beleza e lazer.
Beleza põe mesa
Na área de cosméticos, por exemplo, a empresa Mahogany tem um sistema estruturado de acordo com os conceitos do "Business Format Franchising" (Franquia de Terceira Geração), que consiste no desenvolvimento de uma rede nacional de lojas com toda a gama de serviços que garante assistência permanente ao franqueado em todas as fases da operação.
"O setor de cosmético é extremamente interessante por causa da criatividade e inovação inerentes ao segmento, o que proporciona um grande número de lançamentos e oportunidades durante todo o ano. Por esta razão tem mostrado um crescimento excepcional, mais de 80 % em 5 anos", afi rma Isabella Salton, gerente de Marketing & Franquias da Mahogany Cosméticos.
Franca expansão
Os franqueados, por sua vez, creditam os resultados positivos ao fato de se prepararem melhor. Hoje, os interessados em entrar no ramo de franquias recorrem às informações disponíveis nos diversos órgãos existentes, que oferecem dados consolidados sobre o desempenho das empresas de franchising. Além disso, boa parte opta por um segmento ainda pouco explorado.
Um desses casos é a African Artesanato. Há sete anos no setor, o pontapé inicial se deu a partir da produção de velas, sabonetes e produtos de perfumaria. Mais tarde, os três sócios e irmãos israelenses Meran, Davi e Dotan Mayo começaram a atuar no ramo de importação de materiais de decoração africanos. "Eles não tinham a menor idéia da proporção que o negócio iria tomar", revela a gerente de marketing Nydia Melo.
O PODER DAS BRASILEIRAS
A gama de empreendedores interessada em abrir seu próprio negócio no setor de franquias precisa ser vista como um futuro promissor num mercado de cobras e lagartos, e não apenas como alvo de ações para melhorar e engordar seus rendimentos, defendem os especialistas. "As pessoas devem buscar opções profissionais como se estivessem à procura de um plano alternativo para gerenciar uma rede com três, quatro, cinco lojas", diz o consultor Adir Ribeiro.
Na década de 90, as franquias contagiaram os investidores, mas a falta de experiência em campos estranhos levou muita gente ao fracasso. Felizmente, dados da ABF e da Cherto Consultoria revelam que em 2005 os negócios englobaram 971 redes, contra 814 em 2004. Desse total, 90% são genuinamente nacionais. São 61.458 unidades franqueadas, distribuídas pelo Brasil, que proporcionaram 553 mil empregos diretos e mais de R$ 35 bilhões de faturamento em 2005.
Esse grupo de investidores é em boa parte responsável pelo aumento do consumo e da oferta de trabalho que vem pipocando de uns anos para cá.
"O Brasil é referência obrigatória na América Latina, ao lado do México. A nação está no caminho certo, mas deve ficar atenta aos países que compõem o Leste Europeu, onde a pulverização de franquias dos mais diferentes segmentos vem se estabilizando gradativamente", observa Ricardo Camargo, diretor executivo da ABF.
Mas se somente nos últimos cinco anos o setor de franquias vem se destacando no mercado e sendo alvo de novos empreendedores, há pelo menos há 15 anos já é tema de grandes eventos.
A fórmula do sucesso, ressalta Nydia, é se inspirar na expressão "faça você mesmo". Ao realizar cursos, a empresa proporciona maior demanda entre aqueles que compram seus materiais artísticos. Mais de duas mil pessoas freqüentam as aulas de artesanato oferecidas regularmente pela empresa.
Dessa forma, os três irmãos-sócios se sentem mais otimistas e traçam planos anos de expansão para este ano. A meta da African Artesanato é inaugurar mais nove lojas. Também estão previstos novos pontos-de-venda em cidades do interior paulista e no Mato Grosso do Sul. Com um faturamento de R$ 6,5 milhões em 2005 e crescimento médio de 22% ao ano, o objetivo da empresa é atingir 100 lojas em menos de dez anos.
Para não errar
Mas não basta otimismo para se dar bem no segmento de franquia. Para não fazer parte dos 7% que fecham as portas nos quatro primeiros anos, alguns cuidados são essenciais.
O primeiro deles é se preparar no quesito documentação e contratos. E não faltam profissionais especializados nesse assunto. Um advogado pode analisar todos os papéis referentes ao empreendimento. É importante também conhecer a legislação que rege o setor.
O segundo passo é avaliar mais de uma franqueadora. Isso pode ser feito consultando a Circular de Oferta de Franquias, documento com informações técnicas, formulado com base na Lei Federal nº 8.955, a chamada Lei Magalhães Teixeira. Nela, o então presidente Itamar Franco sancionou a lei que regula o setor de franchising no Brasil.
A partir dessa regulamentação, o franqueador é obrigado a fornecer uma cópia de sua Circular de Oferta de Franquias dez dias antes de fechar qualquer contrato ou efetuar qualquer pagamento relacionado à aquisição de franquia.
Bem informado e ciente das obrigações legais que um franqueado tem - aí vem o terceiro passo -, é necessário analisar a própria afinidade com o segmento que se quer investir. De nada vale, por exemplo, abrir uma loja em um shopping ou um restaurante, se não quiser abrir mão dos finais de semana, pois nestes locais o horário de funcionamento é diferenciado.
Apenas 7%
dos novos
franqueados
não se sustentam
nos primeiros
quatro anos de
funcionamento
contra 60% dos
empreendimentos
tradicionais
Eu quero, eu posso
O consultor Adir Ribeiro, do Grupo Cherto, sugere que o interessado também faça uma auto-avaliação, calcada na disposição para o trabalho durante muitas horas seguidas. Verifi que o quanto tem disponível em caixa e se está disposto a investir parte de suas reservas no negócio.
Uma das dicas do consultor é não escolher a franquia baseado apenas no tipo de produto. "Gostar de comprar roupas não significa que você vai se dar bem com a administração de uma loja do ramo. Uma franquia de sucesso pode ser um fracasso nas mãos de um empresário que não tem afinidade com aquele tipo de segmento", explica Adir Ribeiro.
A gerente de marketing da Mahogany Cosméticos também aconselha: "é imprescindível que a marca tenha foco e uma proposta muito clara de posicionamento", diz Isabella Salton.
Portanto, tenha em mente que se viver num mundo corporativo coalhados de incertezas já é complicado, manter-se na vida ativa com o seu próprio empreendimento requer algumas blindagens.
Uma franquia de sucesso pode
ser um fracasso nas mãos de um
empresário que não tem afinidade
com aquele tipo de negócio
ADIR RIBEIRO, CONSULTOR
"O primordial para que as franquias continuem subindo o elevador com sustentabilidade é manter o controle de custos e reagir rapidamente quando as mudanças de mercado surgirem", reforça Marcos Vignal, vice-presidente da Blockbuster, rede americana de locadoras de vídeo e DVDs. Franqueados, para ele, são donos de suas empresas, mas, ao mesmo tempo, com a credibilidade de uma marca ou empresa famosa.
Olho do dono
Acompanhar sempre o valor da marca é fator essencial no ramo de franquias.
E isso deve ser feito não só por meio da rentabilidade, mas também baseado na percepção que o consumidor final e o intermediário (franqueado) tem dela.
"Esse é o conceito Score-card, que é uma importante ferramenta para esse tipo de negócio", diz Alexandre Rossi, presidente da Cão Cidadão, empresa de franquia que tem como objetivo melhorar o convívio entre o dono e seu bicho de estimação.
O empresário conta que sua afinidade com o ramo de animais começou ainda na infância, quando gostava de ficar observando os peixes no aquário.
A Cão Cidadão organiza adestramentos, cursos e treinamentos sobre comportamento animal, além de dar apoio ao projeto social Cão Terapeuta.
Outra questão, alerta Alexandre Rossi, é que deve-se evitar a relação de amor e ódio entre o franqueado e o franqueador. No início, o franqueado valoriza muito o franqueador, porém, com o tempo, ele o enxerga como alguém que simplesmente'consome' sua receita.
O franqueado, diz Alexandre Rossi, precisa deixar claro que deseja continuar dentro do sistema por vontade própria e não por estar 'amarrado' a um contrato. "A tendência mundial recomenda que o funcionário se sinta cada vez mais como parte do negócio", afirma o empresário.
Treinar é preciso Boa parte desse crescimento de franquias tem como pano de fundo o treinamento e a orientação do franqueados nos quesitos atendimento, gerenciamento de contas e na contratação de pessoas, além dos valores sujeitos a variações conforme as características e o desempenho de cada franquia.
Esse é o caso da Blockbuster. Na empresa, o treinamento do franqueado dura cerca de 65 dias. Acompanhado de um gerente de loja e com a colaboração da área de treinamento, o interessado em se transformar em um franqueado segue para uma das lojas da empresa para entender e aprender todos os passos do funcionamento da companhia. Depois disso, participa de reuniões com as diversas áreas, momento em que ouve explicações sobre a gestão do negócio.
O investimento, no entanto, não é baixo, gira em torno de R$ 570 mil, já inclusa a taxa de franquia de R$ 70 mil. A previsão de faturamento médio está estimada em R$ 80 mil, com um prazo de retorno de 46 meses.
De acordo com especialistas, o apoio das franqueadoras, que entram com o know-how, avaliação de custos de instalação menores e previsíveis, entre outros, são pontos a favor do segmento de franquias.
Renovação no mercado O sistema de franquia vem ao longo dos últimos anos não só atraindo novos empreendedores, mas também fazendo com que empresas com tradição no mercado inovem e entrem no segmento. Um dos exemplos bem-sucedidos é o Grupo Siciliano.
Com 78 anos de experiência no setor, a empresa decidiu, em 2004, que era hora de apostar no sistema de franchising. Após uma reestruturação e com iniciativas mais agressivas, o grupo contabiliza atualmente 62 pontos-de-venda, destes, 52 são próprios e 10 franquias. " O primeiro objetivo é expandir para onde não temos lojas. O segundo é fortalecer nossa posição nos locais nos quais somos líderes de mercado", diz Fernanda Beli, diretora de Operações de Varejo e Franquias da Siciliano, que tem como meta abrir mais seis lojas franqueadas até o final do ano.
Para ser um franqueado da rede, o investimento varia de R$ 350 mil a R$ 800 mil, dependendo do tamanho da loja. E o retorno da aplicação, de acordo com informações da empresa, é gerado entre os 30 e 42 primeiros meses.
Ponto fraco
Um dos pontos fortes das franquias são os melhores preços de insumos, realmente imbatíveis - graças ao poder de negociação dos franqueados, - explica Marcos Vignal, vice-presidente da Blockbuster.
No entanto, nesse cenário tão positivo e otimista, há um aspecto que deve ser encarado com muita atenção e cuidado pelos franqueados: o valor cobrado pelo frete. Os custos com transporte, logística e serviço variam muito conforme a região do Brasil onde está localizada o ponto-de-venda.
Em tempo: fazer parte de uma rede requer disciplina para cumprir as normas exigidas pela franqueadora, já que é o franqueador quem aprova o adquirente. Da mesma forma, o franqueado não pode transferir a franquia a seus herdeiros sem a aprovação do franqueador.
QUESTÃO DE QUALIDADE
Uma das ambições no universo dos franqueados do Brasil é obter o Selo de Excelência em Franchising (SEF), reconhecido como referência no ramo, outorgado pela Associação Brasileira de Franchising (ABF). Este ano, 61 empresas irão recebê-lo, o que signifi ca um aumento de 20% de franquias que já receberam esta premiação em relação ao ano passado.
Criada há mais de dez anos, o mundo das franquias nunca mais foi o mesmo.
A certificação visa reconhecer a atuação e o desempenho dos franqueados por meio de estímulo, valorização dos produtos e maior profissionalismo.
A partir de uma rigorosa pesquisa e avaliações feitas junto ao franqueador/ franqueado, as premiações se estendem a três categorias (Pleno, Sênior e Master), de acordo com o número de franqueados e tempo de atuação. "Os critérios para a conquista do Selo são aprimorados anualmente e o mercado em geral já identifica a chancela", diz Ricardo Camargo, diretor-executivo da ABF. O SEF, que tem validade de um ano, prima pelo amadurecimento e aperfeiçoamento desses critérios de concessão, o que acaba gerando um forte impulso para o franchising brasileiro. Para obter este prêmio, a experiência tem um preço. "Até as instituições financeiras que operam no sistema consideram o Selo um diferencial de credibilidade para as redes" acrescenta Ricardo.
